Fazer o que se ama – armadilha?

Já faz um tempo que tenho tido contato com o mundo do “faça o que ama”, vi sentido na ideia desde o princípio, mas era um sentido literal: eu sentia que era um conceito interessante.

O movimento parece ter ganho uma força incrível, porque agora vejo tantos outros artigos contra ele. Alguns chamam o movimento do “Faça o que ama” de armadilha. Mas, será mesmo? O primeiro que eu li contra, que já não lembro o link, era bem construído e me fez concordar por um momento. 

A principal argumentação desse primeiro eltexto era que se todas as pessoas do mundo decidissem seguir o conselho e seguir carreiras que amassem quem iria fazer o trabalho “ruim”?

Esse argumento me colocava para pensar, até que li um texto falando de um cara, pós-graduado em algo que daria dinheiro (engenharia se não me engano), mas ele escolheu ser motorista de ônibus. E para ele, o trabalho significava muito, era o que o fazia feliz! Ele transportava pessoas! 

Tempo depois, o argumento de “trabalhos ruins” ainda ressoava na minha cabeça. Até que essa semana um amigo me disse que o que o fazia ele feliz de verdade era ser garçom. Ele gostava de servir as pessoas, do contato direto com o cliente… bom, eu achei que garçom estava na lista de profissões “ruins”, horários malucos, gente chata exigindo coisas. E ele gostava, era o que o que fazia feliz.

E por que ele não trabalhava com isso, então? Porque o pai dele não queria.

Foi então que o argumento de “trabalho ruim” caiu para mim. O problema não era não haver pessoas dispostas a trabalhar em coisas consideradas “ruins”, o problema é que nós não valorizamos todas as profissões! O problema é que nós acreditamos que existam “trabalhos ruins”. E bom, no âmbito pessoal, eles podem existir. Trabalhar com números para mim seria um tormento, área de saúde também. Mas eu entendo que tenham pessoas que amem os números, e tantas outras que se realizam como enfermeiros, médicos… e claro, eu valorizo essas profissões.

Mas no âmbito social, os trabalhos deveriam ser todos valorizados, independente do que sejam. O gari, por exemplo, nós costumamos ver pessoas mexendo com lixo e sujeira, que horror. Mas é nosso lixo, é nossa sujeira, e se essas pessoas não estivessem lá para limpar para nós, como seria nossa cidade? Podemos pensar no gari como o cara que mexe com lixo. Ou podemos enxergá-lo como o profissional que traz limpeza para nossa cidade. 

Depois dessas duas histórias, do cara que amava ser motorista de ônibus, do amigo que era mesmo feliz sendo garçom e só não o era pelo pai, cheguei a conclusão que a única forma de realmente saber se não existem pessoas dispostas a fazer todos os trabalhos é valorizando todas as profissões.

Fico pensando em quantas pessoas não assumem suas paixões, seus desejos com receio do que vão pensar. Ou pior, não assumem nem para si mesmas, deixam suas paixões bem escondidinhas que é para ficarem quietinhas e não darem trabalho! Façam esforço para ignorar e nem percebem, não olham para dentro só para fora.  E por quê?

Pelo meu segundo argumento: olhar para dentro dá trabalho e isso é essencial para descobrir nossas paixões. Fomos ensinados a olhar para fora, desde pequenos, formatados a ignorar tudo que vem de dentro. Na escola, ficávamos sentados em cadeiras mesmo quando o corpo pedia movimento, tínhamos de fazer silêncio mesmo que a necessidade de falar fosse enorme, xixi só quando fosse permitido, comer só no recreio. Não importa o que vem de dentro, importa os horários escolares. Isso quando imposições desse tipo não vem de casa, em rotinas que não consideram os ritmos biológicos nem humanos, quem dirá de uma criança específica.

Além disso, aprendemos que podemos agir como todos esperam e ganhar estrelinhas, elogios e palmas. Mas se saímos um pouco dessa expectativa, e independente do motivo porque ninguém vai ter peguntar o porque sinceramente, recebemos críticas, olhares tortos, sermões e o cantinho do castigo. 

E sim, essas duas experiências ainda estão em nós, ainda esperamos estrelinhas e temos receio do cantinho do castigo. Mesmo que não seja tão consciente mais.

Tendo esse histórico, olhar para dentro é um trabalho árduo. Aceitar o que se vê dentro de nós, ainda mais. E não é coisa a curto prazo também, e por isso eu sempre penso que, muitas pessoas podem fazer qualquer tipo de trabalho enquanto procuram sua paixão. Para mim, só a consciência de estar procurando a minha, de estar no caminho, já é motivação suficiente para fazer bem o trabalho que faço hoje (que envolve algumas paixões, mas não é tão significativo quanto eu gostaria). 

Por isso, talvez seja mais fácil pensar que essa coisa toda de “faça o que você ama” não é para todo mundo, ignorar os questionamentos internos e passar o dia fora investindo tempo, energia e talento em uma coisa que não te traz nada muito além de dinheiro. Ai, a satisfação que falta no trabalho é recompensada em consumo.

O que nos leva a outro argumento: satisfação pessoal X consumo e como isso pode influenciar na economia. Mas como esse texto está ficando muito longo, vou deixar para outro post e como nota para mim, quero também falar sobre porque acredito que fazer algo que se tem amor pode trazer mais dinheiro naturalmente e talvez desmitificar um pouco a questão do “faça o que ama”. Ah, e também falar sobre o argumento desse texto esse artigo da Exame que foi o último que li e ele me incomodou tanto que está gerando esse texto.

Bom, até o próximo post. 

Recomeçando

Os blogs acompanham minha vida desde a adolescência. Demorei para perceber que blog novo era sinônimo de fase novo, ciclo que se iniciava. Em uma dessas fases, ao invés de trocar de blog atualizava o template de tempos em tempos.

Esse blog não é diferente. Engravidei há muitos meses atrás, assim que me formei publicitária. Já trabalhava na área e somei a vida profissional, a maternidade e o casamento. Foi uma fase maravilhosa, embora na época eu me sentisse mais em um furacão. Cresce e aprendi mais sobre mim e o mundo nesse período do que poderia supor possível.

Encarei sombras, dores, feridas, descobri coisas que não queria mais, acrescentei tantas outras. Me despedacei tantas e tantas vez, até ir reencontrando pedacinhos meus que queria de volta no quadro final, junto a tantos outros novos.

Nesse período, criei três blogs, não simultaneamente, mas cada um foi nascendo naturalmente e eu fui mantendo os três. Não com muita constância, mas tê-los lá significava ter os três.

O primeiro foi o Depois de Benjamin, que criei na gravidez, onde o turbilhão só começava, mas já era muito para digerir. Nele contei um pouco sobre meus pensamentos loucos da época, sobre o parto que eu queria e consegui! O relato está nesse blog também. Um pouco do meu puerpério e dos desafios que a maternidade me trouxe.

O segundo foi o Do que carrego no bolso, porque todas as coisas que chegaram até a mim na vida pós-maternidade não cabiam no primeiro blog. Eram de várias áreas da vida, tinham mais a ver com a mulher em mim do que a mãe.

O terceiro blog nasceu junto com o curso de costura que eu comecei, meio no susto. E era um lugar para colocar meus escritos, poesia e prosa, que não cabiam em nenhum dos anteriores.

E foi assim que me dividi. A mãe, a mulher e a escritora.
Três ciclos que se enlaçavam mas não se encaixavam. Como se eu remontasse o quadro de mim em três área distintas.

Até que surgiu a vontade de criar esse blog, em que os três anteriores de alguma forma estivessem presentes. Em que eu olharia de novo para cada um desses blogs, trazendo algumas coisas deles para cá, trazendo muitas novas de tudo isso. E é aqui, que eu vou unir essas três parte divididas de mim (e tantas outras).

Porque sinto que o ciclo da minha reconstrução chegou ao fim, não que eu esteja ‘finalizada’, mas o que eu quero e o que eu não quero estão mais claros. É como se o alicerce estivesse pronto e, agora, vou contruindo em cima disso, com mais coesão e principalmente, mais alma e autenticidade.

Com mais sentido e sentimento.

Gratidão!