Necessidade x Desejo – por que eu acho que precisamos é olhar primeiro para nós mesmos antes de tudo!

Li esse post falando sobre menos da gente e mais dos outros e ocupei tanto o espaço de comentário do blog que achei que devia mesmo era fazer um post. E vamos lá!

Eu vejo muita gente falando sobre isso de sermos menos egoístas e olharmos mais para os outros, e eu não consigo concordar com isso. Calma! Eu explico!

Eu concordo que não podemos sair pelo mundo só suprindo nossos desejos sem nunca olhar para o outro, sem nos importarmos com as dores alheias. Só olhando para o vazio que nem conseguimos pensar muito dentro do peito. Masss… entre isso e entre focar nas nossas necessidades reais (e não nos nossos desejos) tem uma distância enorme!

Acho que é ai que está a principal diferença: Necessidade X Desejo. Necessidade é aquilo que é essencial para nosso bem estar, desejo é aquilo que a gente acha que precisa para suprir os vazios internos. Vamos ver um exemplo prático?

Fulano deseja que as outras pessoas reconheçam o quanto ele é bem sucedido e por isso sempre está tentando ganhar mais e mais dinheiro, para comprar mais e mais coisas. Um carro importado, roupas de marca, uma viagem cara… e assim vai, comprando coisa cara atrás de coisa cara só para ver as outras pessoas de olhos arregalados e pensando em como ele é bem sucedido. Mas de onde vem esse desejo de Fulano? Talvez da necessidade de ser amado… e em algum momento ele aprendeu que para ser amado precisa ter dinheiro. Que só assim amigos e mulheres se interessarão por ele. Mesmo assim, ele nunca se sente verdadeiramente amado, e por isso precisa comprar mais e mais coisas. Atrair mais amigos, mais mulheres… até encontrar alguém que preencha o vazio no peito. E bem provavelmente, o amor que está faltando é o dele para ele mesmo. Enquanto ele não se ver como alguém que mereça ser amado, com ou sem dinheiro, ninguém suprirá essa necessidade dele.

Exemplinho bobo, mas deu para pegar a ideia? Desejos escondem necessidades. As necessidade são reais, essenciais. Os desejos são vazios e não suprem realmente as necessidades. Ou suprem, por um breve período, mas assim que passa o efeito, bora repetir os padrões. Necessidade é da essência, desejo é do ego.

E bom, eu não vejo o ego como o vilão, não! O ego só é negativo, se a gente não consegue se enxergar de verdade (e ok, ok, se enxergar de verdade é mesmo muito difícil, dói e é exercício para vida toda!). Mas quando a gente consegue enxergar o ego e convida ele para tomar um chá com a gente, ficamos mais abertos e dispostos a ajudar verdadeiramente os outros. Porque só quando estamos presentes em nós mesmos, conscientes de nós é que podemos fazer isso pelos outros.

Eu sou mãe de um gurizinho lindo de 2a8m e uma das várias coisas incríveis que aprendi com a maternidade? Que a melhor forma de eu ser mãe para o meu filho, de acolhê-lo nas suas dores, incentivá-lo nas descobertas, nas tentativas é fazendo tudo isso primeiro comigo! Só consigo enxergar verdadeiramente a necessidade do meu filho, quando consigo enxergar as minhas necessidades (e veja bem, enxergar não é suprir, só reconhecer e aceitar mesmo!).

Meu filho entrou na fase que algumas pessoas chamam de Terrible Two há algum tempo, sabe aquela coisa que a maioria das pessoas chama de birra? Então, essa fase. Que antes de ser mãe eu via como birra também… ai me pari mãe, meu filho nasceu e tudo mudou. Descobri que a tal da birra é só uma incapacidade dele de se expressar. Tem aquele monte de sentimento dentro dele, tudo misturado, e ele não sabe como lidar com aquilo nem me contar o que tá sentindo. Por isso as crises de choro, por isso se joga no chão… ele não sabe o que fazer e tá pedindo a minha ajuda. Às vezes, como no exemplo do Fulano, ele não vê e não aceita suas necessidades (pode ser dormir, comer, descansar, atenção).

E o que isso tem a ver com essa história de eu X o mundo? Bom, para ajudá-lo a sair dessas crises eu precisava de algumas coisas: estar realmente presente para ele, identificar as necessidades dele. E quando uma criança chora querendo doce, brinquedo ou qualquer coisa, isso não significa que isso seja o motivo do choro! Aí que o bicho pega, porque ele me diz que quer X, mas a necessidade dele é Y (como o exemplo)! Ele chora pedindo doce quando eu estou perdida nos meus pensamento sem conseguir dar atenção real para ele. Chora pedindo o brinquedo impossível porque tá com muito sono e não sabe como me dizer isso…

Oxi, como é que eu reconheço as necessidades do meu filho, então? É simples (porém não fácil), me conecto com ele! Só um detalhezinho bobo, para fazer isso preciso primeiro me conectar comigo, com as minhas próprias necessidades. Preciso estar presente em mim, ligada a mim, para conseguir olhar para ele de verdade e compreender do que ele precisa.

Se eu não consigo me conectar comigo e olhar para mim de verdade, parece que tem um porta entre nós. E é incrível como o reconhecer as necessidades faz uma diferença tremenda.

Quando a gente entende que briga com o marido que não quer trocar fralda de cocô porque tá precisando é de um abraço,de acolhimento, contato físico, e não que a fralda da criança seja trocada parece que o horizonte se abre! Tem uma terapeuta argentina ótima que chama isso de “pedido deslocado”: a gente precisa mesmo de uma coisa, mas não consegue reconhecer, arranjamos outra desculpa para chorar.

Eu acho que só através desse exercício de encontrar as reais necessidades podemos ajudar verdadeiramente alguém. Primeiro fazendo com as nossas mesmos, depois tentando enxergar a dos outros…

Eutonia – minha experiência

Escrever sobre a Eutonia não é tarefa fácil para mim e para isso, vou precisar fazer uma retrospectiva (tentarei ser breve, não garanto!).

Eu era uma pessoa muito racional, muito verbal, objetiva e prática. Tinha muita facilidade para escrever (pouquíssima para falar). Mas algo me incomodava em ser assim, tanta mente, pouco corpo, nada coração… eu me sentia Atena, a filha que nasceu adulta da cabeça do pai, sem ligação com o feminino. Uma mulher masculinizada. Onde estava a emoção em mim? O elemento água? Onde é que pulsava meu coração? Cadê meu feminino?

Depois de muito encasquetar com isso e perceber que não podia ser minha essência já que me incomodava tanto, decidi cavocar minha alma até encontrar um resquício realmente feminino em mim. E foi assim que, em dezembro de 2010, decidi que ia me concentrar em me ligar ao elemento Água, nas minhas emoções, no meu feminino.

Nessa época também comecei a dançar, sozinha no quarto, no escuro. Com medo de ver a mim mesma ou de que alguém soubesse que eu fazia isso. Dançava sem me preocupar com os movimentos, fazia os movimentos que me corpo pedia. Às vezes pensava nos deuses que eu honrava na época e em que movimentos eles deveriam fazer, cheguei perto de alguns transes com isso e a sensação era ótima. Me sentia presente no meu corpo, e sentia a presença de uma energia divina enorme dentro e fora de mim.

Em fevereiro de 2011 engravidei. Sabe aquela história de cuidado com o que você pede? Pois é, ela não saia da minha cabeça! rs… Não foi uma gravidez planejada, estava me formando na faculdade, começando a vida profissional. Nada planejada, mas eu sabia, completamente desejada. E hoje vejo: completamente necessária.

Na gravidez, o feminino foi se mostrando para mim, aos pouquinhos. Fui encontrando minhas sombras, minhas lágrimas. Minhas águas começaram a rolar enquanto meu filho, Benjamin, crescia no meu ventre. E não foi nada fácil aceitar meu processo, me entregar a ele e confiar. Eu não me aceitava, não confiava em mim, não me entregava nem a mim mesma.

Procurei muito por um parto respeitoso, sentia tanto que eu e meu filho precisássemos disso. Fui buscando, com muita ansiedade, muita apreensão, e consegui meu parto domiciliar. Uma experiência incrível, transformadora, quando encontrei grande parte da mulher em mim. Onde eu nasci mulher. Onde eu me senti conectada a todas as outras mulheres que pariram antes de mim. Me senti em uma teia feminina. Uma teia de dor, de sofrimento, mas de amor, de acolhimento. 

Encontrar a mulher em mim me trouxe a consciência do poder dessa energia. Mais que isso, trouxe mulheres lindas e inspiradoras para minha própria teia. A conexão entre mulheres que sabem dessa energia é incrível! Incrível demais! Assim fica fácil perceber a necessidade da sociedade nos colocar umas contra às outras. Somos tão fortes juntas! A fragilidade de cada uma amparada e protegida pela força da outra. 

Pensando agora vejo o quanto mostrar essa fragilidade aumenta a conexão e a força, porque são nos grupos que ninguém tem vergonha de mostrar suas fraquezas, suas lágrimas, suas dificuldades que vejo essa energia crescer e vibrar. Onde o acolhimento é genuíno!

E foi assim que eu conheci a Mirella Bagdadi, e nem sei como dizer exatamente quando ou como, só sei que nas trocas do grupo nós nos identificamos e aos poucos fomos nos aproximando. E foi através dela que conhecia a Eutonia.

Ah, a Eutonia! Comecei a fazer com a Mirella agora em 2014, e nem foram tantas sessões assim. Mas para mim foi (e está sendo) uma ferramenta extraordinária, ou melhor, um conjunto de ferramentas! É praticamente uma caixa multiuso rs…

Uma coisa interessante desse processo de encontrar meu feminino é que eu perdi a maior parte da minha objetividade, da minha praticidade, até diria, da minha racionalidade. Tudo passou por uma reformulação, e foi difícil me encontrar de novo dessa nova forma. Me via tentando falar coisas sem conseguir colocar para fora. As palavras, que foram minha válvula de escape por uma parte da infância e toda a adolescência, não eram mais suficientes, não me encontrava nelas. Por isso demorei tanto para voltar a escrever. Acho que as palavras hoje tem uma nova função na minha vida.

Mas voltando a Eutonia, as coisas que senti que me influenciaram e foram essenciais para me ajudar a organizar toda essa minha nova eu. Por tópicos, para não me perder, nem me estender muito mais:

Certo e Errado: A maioria das atividades tem um certo, tem um jeito melhor de fazer. A Eutonia não, ela parte do aluno, do corpo sendo trabalhado. Da percepção desse corpo, dos movimentos, das formas. Eu tinha vivido até então tentando fazer o certo dos outros. Tentando estar sempre certa. Por quê? Nem sei dizer, criação eu acho. Perfeccionismo talvez. 

Foi na Eutonia que percebi duas coisas: a minha necessidade absurda de estar certa. E o quanto eu gastava energia fazendo isso! Meu corpo inteiro tensionava, até meu rosto (oi,bruxismo!), pensando se estava certo ou não. Percebi isso em uma aula em grupo de Eutonia. Depois comecei a reparar no meu corpo em todas as atividades. No trabalho era ainda pior! Tensão para todo lado. 

Ah, uma terceira coisa: percebi também que eu já deixei de fazer muita coisa por medo de não fazer certo. Dançar era uma delas. Percebi que o escuro me protegia do erro, percebi que era por isso que não queria dançar perto de ninguém! Ia me movimentar de forma errada. Percebi o quanto me contive, fisicamente, emocionalmente, com medo de sair fora da curva. Com medo de que então reparassem em mim e vissem o quanto eu estava errando.

Autoconhecimento: descobri que é impossível amar o que não conheço. E eu definitivamente não conhecia meu corpo. Não olhava para ele, não o sentia, não sabia das suas formas. Com a Eutonia eu fiz tudo isso, descobri suas possibilidades, o quanto de energia armazenada na minha pele, quantas memórias estacionadas em mim. Além das sessões, eu me movimentava em casa, da mesma forma que fazia lá em 2010 (mas com a luz acesa e olhando no espelho! rs) e com isso via como meu corpo era incrível! E tinha movimentos lindos. Pronto, a Eutonia fez eu me apaixonar pelo meu corpo! 

Confiança e entrega: Descobri que eu tinha medo de confiar e de entregar. Eu me deitava sem acreditar que o chão abaixo de mim me sustentaria. Eu me deitava, mas não permitia que meu corpo entrasse em contato com nada além do necessário. Isso fisicamente, mas eu sabia que esse medo era muito além do físico.

Leveza: descobri que posso fazer qualquer movimento com leveza, com tranquilidade, respeitando meu corpo, seus limites, aceitando, confiando e me entregando. E sim, não se restringe ao corpo! rs

Movimento milagroso que faz fluir: aprendi que me movimentar abre espaços, permite que os líquidos e sei lá mais o que fluam pelo meu corpo de uma forma que me faz sentir mais leve. Alivia as tensões. Acalma. Relaxa. Espreguiçar é outra coisa milagrosa! E quando começo a me sentir travada, quando minha mente começa a querer fugir de mim, é só ir para o corpo e me concentrar nesse eu material. Traz minha mente para o presente, me traz para o aqui e agora, resultado: alivia a ansiedade, afasta a depressão… 

{Re}organização interna e externa: quando saio de uma sessão de Eutonia, sinto que meu corpo está mais encaixado e flexível. É como se ele fosse reorganizado e com isso, todas as outras parte de mim se reorganizam juntas. É como chacolhar um copo com areia e pedras (talvez também água, ar e fogo! rs) e ver como esses elementos vão se ajeitando. E minha principal função é permitir que esses elementos se encaixem da melhor forma dentro do recipiente. É mais “não-ação” do que “ação”. Talvez seja focar no ser simplesmente… e o coisa difícil!

Confirmação: e uma das coisas que a Eutonia, junto com várias outras coisas que aconteceram nesses últimos meses, me fizeram ver foi que sim, eu posso e devo confiar em mim mesma. Quando me ouço, eu encontro meu caminho. Quando me enxergo, eu vejo a luz indicando a direção. Eu só tenho de silenciar as outras vozes e ir buscando o que é meu de verdade. Tenho de confiar em mim, aceitar quem eu sou e meus caminhos, me entregar ao que meus sentidos me mostram e eu chegarei exatamente a onde devo estar. No aqui e no agora, que é realmente o único lugar que importa. Tomar a consciência de quem sou e aceitar é o primeiro passo para a mudança acontecer, e assim, ela pode ser leve, sútil e forte!

Gratidão, Mirella!