Minimalismo, sentimentos e o rio da vida

Conheci o minimalismo buscando sobre organização quando tinha um bebê de poucos meses no braço e uma casa de pernas para o ar ao redor. Eu estava em pedaços depois de parir meu bebê – resultado de um ritual de passagem maravilhoso ao qual me entreguei por completo, o parto – e hoje vejo que eu só queria encontrar uma forma de remontar esses pedaços, era isso que eu queria organizar: eu.

Foi o minimalismo que me mostrou que antes de organizar qualquer coisa eu precisava jogar fora tudo aquilo que não fazia mais sentido, eu precisava desapegar, soltar, deixar ir.

É engraçado como a gente se agarra nas coisas. Nas coisas boas para continuar sendo boas, até que não sobra mais nada deles além de dor e de sofrimento. Nas coisas ruins nos agarramos marcando a alma com sofrimento, mágoa e ressentimento. Nos apegamos também aquilo que não queremos assumir, deixamos escondido dos nossos próprios olhos o que não podemos aceitar em nós e ai aquela coisa cresce, reflete nos outros, surge em nossas crianças. Nos apegamos a objetos, imagens, pessoas, lugares, casas, espaço, tempo… nos apegamos a um período de nós e não nos deixamos ir além daquilo.

Meu minimalismo começou no plano físico, das coisas e objetos e foi se refletindo dentro de mim. E quanto mais eu entendia isso tudo, mas a imagem que eu sempre tive da vida ia ficando mais clara: o rio.

O rio que precisa fluir. As águas que precisam correr. Águas que correm dentro de nós e permitem que nós possamos criar, florescer. Fluir é o oposto de estagnar. Fluir é movimento, é leveza, é crescer. Estagnação é parar no tempo, na vida… e quando a vida pára, a morte toma conta.

Não que não haja morte no movimento. Mas quando há fluidez a morte é só uma etapa para vida vir ainda mais forte, desenvolvida. Quando o ciclo da vida flui a morte-vida-morte é uma espiral que nos impulsiona para cima. Quando esse ciclo estagna, não sai da morte e toda vida parece ter de resistir com tanta força que acaba com nossas energias.

Foi com o minimalismo que minha metáfora para vida fez mais sentido. E foi com essa metáfora que entendi a importância de deixar que os sentimentos fluam. Quantas vezes freamos nossos sentimentos? Não permitamos que eles sigam seu percurso?

Seja aquele amor que não queremos deixar morrer e nos agarramos a ele por medo de não voltar a amar, seja aquele ódio que queremos conservar para nunca mais passarmos pelo que ele nos causou? Seja algum sentimento que nos causa culpa e queremos fingir que não o sentimos?

Quanto mais mergulho nesse rio melhor vejo a culpa como um dos elementos mais fortes da estagnação. É como se ela criasse uma barreira ao redor das coisas que pensamos que não devemos sentir. “Eu não tenho o direito de sentir isso, eu não devia sentir isso” – e esses pensamentos carregados de culpa freiam o sentir, e ele se mantém em nós, estagnado, apodrecendo, mofando e ficando cada vez mais monstruoso.

E seguimos a vida nos agarrando aos sentimentos, as emoções, proibindo que elas sigam seu caminho. E olhamos as crianças ou os poucos adultos que fluem como se eles não sentissem de verdade, já que se esquecem tão rápido do que passou, quando somos nós que não permitimos que o rio siga… e um rio parado se torna só uma represa. Mais dia, menos dia, tudo que está nessa represa morre e eu penso também em todas as coisas que não chegam nem a viver pois as águas desse rio nunca passará por eles.

Deixe suas águas rolarem, deixe fluir. Solte.

Anúncios