[caos neoliteral]

a arte brota
singela
em silêncio
encontra combustível

explode
espalha
escoa

ecoa no meu peito
retumba

eclode os sentidos
confunde

arte que vibra
viva
arte que me bagunça
pulsa
a arte.

———–

porque a arte me traz meu caos.

me obriga a olhar dentro de mim em tudo que não segue minha lógica fria, racional.
a arte quebra meus sentidos. explode meus desvarios. escancara meus medos. reflete minha confusão.

ah! doce arte que me parte a pele com seu bisturi sensorial e expõe minha carne viva.
me tira o sangue e o então devolve mais vermelho, mais vivo.
transfusão de inspiração.

inspiro. expiro. espio com receio de ser novamente aberta, exposta.

tantos anos a me controlar.
tantos dias a me conformar.
tantos sonhos a sufocar.
e essa intrépida, em segundos,
me descontrola, me revolta, me põe a sonhar.

ela provoca. inóspita. ela convoca ao desconforto de criar.
e eu respondo, tímida.

só para sentir de novo seu arrepio suave sobre a minha pele,
seus sussurros diabólicos a me convidar.
aceito, minha senhora. venha me inspirar.

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A Voz

Ando me sentindo leve. Feliz até.

E aparentemente, nada mudou. Nada além de mim mesma.

Meu caos particular continua. Foi eu que aprendi a aceitá-lo e me encontrar nele. Por mais que seja tão diferente da dos outros. Por mais que ninguém, além de mim mesma, entenda.

Aceitei meu jeito de ter tudo do meu jeito. Parei de buscar fórmulas, gurus ou sistemas perfeitos. Encontrei minha própria perfeição. E ela, bom, ela muda diariamente. A cada semana escolho um jeito diferente, mas fluo por ele sem problemas depois que parei de resistir.

Encontrei meus sons, minhas cores. Ando pintando meus próprios quadros, minha própria felicidade.

E de tão diferente da do vizinho, até me confundo. Às vezes ainda demoro um pouco para ver a beleza disso, a beleza em mim, a beleza que vem e vai de mim. Mas, afinando os olhos, limpando as lentes, e soltando o ar, eu vejo. Me enxergo. Me encontro.

Minha luz tem conseguido refletir dentro do meu corpo, pelas janelas que limpei, dos cômodos que desisti de manter fechados. Abri as cortinas, arejei as portas. Deixei o ar entrar e também sair.

Respirei profundamente e fui abrindo minha portinholas. Perdi o medo de ser engolida pela minha Esfinge e ando desvendando meus mistérios, resolvendo meus enigmas.

Desisti do sentido padrão. Do senso comum. De frases lógicas. Do objetivo. Do concreto. Desisti de tudo que não era eu. E então, encontrei um sentido novo, uma lógica diferente.

Me encontrei refletida naqueles que cruzaram meu caminho. Encontrei minha gratidão na luz dos seres incríveis que passaram (e passam) pela minha vida. Me inspirei em outros para ter coragem de olhar para mim mesma.

Funciona. Me vi.

Me perco ainda. Choro ainda. Desconecto. Caio para dentro de mim. Me afogo nas minhas lamúrias. Tenho vertigens.E meu medo me encara com seus olhos grandes e redondos. E eu, bom, eu abraço meu medo. Abraço ele com força e lhe mostro minha presença. “Estou aqui, te amo. Você não vai mais estar sozinho”. E ele relaxa, e ele se solta, ele reflete amor.

E ouvi essa voz, que não parece minha, mas sou eu. Essa voz que carrega uma calma que não me lembra de mim mesma, essa voz que tem a sabedoria de todos aqueles que vieram antes de mim, essa voz que é minha conexão com a Terra, com o sangue dos meus, com os espíritos que me sustentam. Essa voz. Ah, essa voz!

É ela que sussurrava desde sempre, mas hoje ela ecoa dentro do meu peito e afasta meus fantasmas. Essa voz me lembra da força do meu sangue, da coragem do meu espírito, do amor no meu coração. Essa voz abraça meus medos, meus temores, ouve meu choro, me sustenta. Ah, essa voz!

Essa voz que ainda fala comigo na 1ª pessoa do plural. Essa voz que me faz companhia, e me dá todo o amor que eu procurava fora de mim. Essa voz que preenche o vazio com seu som. Essa voz que estará sempre, sempre, comigo.

Essa voz que já teve tantos nomes: Hécate, Sedna, Ixchel… Mulher Selvagem… La Loba… Lakshmi.

Eu sinto muito, me perdoa. Eu te amo. Sou grata.
Aceito, entrego, confio. Agradeço.